As Feridas Só Têm o Poder que Nós Damos a Elas

As Feridas Só Têm o Poder que Nós Damos a Elas

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🗓 Publicado em 01/09/2026
✍️ Por Pe. José Vidalvino
📘 Psicoterapeuta E Criador Do Método Da Cura Da Criança Interior


As Feridas Só Têm o Poder que Nós Damos a Elas

Introdução

Todos nós carregamos marcas. Algumas são visíveis, outras estão escondidas tão profundamente que, muitas vezes, nem percebemos o quanto ainda influenciam a nossa maneira de viver. São lembranças, palavras que ouvimos, situações que enfrentamos, perdas, decepções, rejeições e momentos que nos machucaram. Algumas feridas surgiram há pouco tempo. Outras nos acompanham há anos. E existem aquelas que pensamos já ter superado, mas que voltam a doer quando alguma situação nos faz lembrar do que aconteceu.

A grande verdade é que não podemos mudar aquilo que já passou. Não temos como voltar no tempo e impedir que determinadas pessoas nos machucassem ou que certas situações acontecessem. O passado faz parte da nossa história, e negar isso não muda os fatos. Mas existe algo que podemos fazer: escolher o que vamos fazer, hoje, com aquilo que aconteceu conosco. E essa escolha pode fazer toda a diferença entre continuar vivendo como vítima de uma ferida ou começar um caminho de cura e transformação.

Isso não significa que devemos fingir que a dor não existiu ou diminuir aquilo que passamos. Existem experiências que realmente nos machucam profundamente. Há palavras que deixam marcas, relações que nos ferem e acontecimentos que mudam completamente a nossa vida. Reconhecer essa dor é importante. No entanto, chega um momento em que precisamos nos perguntar: até quando vou permitir que aquilo que aconteceu no passado continue controlando a minha vida? Essa pergunta pode ser o começo de uma grande mudança.

1 – O que realmente mantém uma ferida aberta?

Muitas vezes, acreditamos que sofremos apenas por causa do que aconteceu. Mas, embora o fato tenha sido doloroso, existe também a forma como continuamos interpretando e revivendo essa experiência dentro de nós. Duas pessoas podem passar por situações parecidas e reagir de maneiras completamente diferentes. Isso não quer dizer que uma sofreu mais ou menos do que a outra. Significa apenas que cada pessoa possui sua própria história, suas crenças, seus medos e sua maneira de compreender aquilo que viveu.

Existe uma frase atribuída ao filósofo Jean-Paul Sartre que diz, em outras palavras, que não importa o que fizeram conosco, mas aquilo que vamos fazer com o que fizeram conosco. Essa reflexão é muito importante porque nos lembra que, embora nem sempre possamos controlar o que acontece, podemos aprender a assumir responsabilidade pela maneira como seguimos em frente. Não somos responsáveis por tudo o que fizeram contra nós, mas podemos ser responsáveis pelo processo de não permitir que essas experiências definam toda a nossa vida.

Uma ferida continua tendo poder quando passamos a construir a nossa identidade ao redor dela. Começamos a pensar: “Eu sou assim porque fizeram isso comigo”, “não consigo confiar em ninguém por causa do que aconteceu” ou “nunca vou conseguir ser feliz porque fui muito machucado”. Aos poucos, aquilo que aconteceu deixa de ser apenas uma parte da nossa história e passa a determinar quem acreditamos ser. É nesse momento que precisamos lembrar: você passou por uma experiência dolorosa, mas você não é a sua dor. A ferida faz parte da sua história, mas não precisa escrever o final dela.

2 – Ignorar a dor não significa que ela desapareceu

Uma das coisas que mais fazemos quando algo nos machuca é tentar esconder. Fingimos que não aconteceu, dizemos que já superamos ou simplesmente evitamos pensar no assunto. Às vezes, fazemos isso porque acreditamos que falar sobre a dor vai nos deixar ainda mais fracos. Outras vezes, simplesmente não sabemos como lidar com aquilo que sentimos. Então colocamos tudo em uma espécie de gaveta emocional e seguimos em frente como se nada tivesse acontecido.

O problema é que aquilo que não é cuidado não desaparece apenas porque deixamos de olhar para isso. Uma ferida ignorada pode continuar aparecendo de outras maneiras. Ela pode surgir nos relacionamentos, nas reações exageradas, na dificuldade de confiar, no medo de ser rejeitado ou na necessidade constante de aprovação. Às vezes, nem percebemos que determinadas atitudes que temos hoje estão ligadas a experiências que vivemos muitos anos atrás. A dor pode até ficar escondida, mas isso não significa que ela deixou de existir.

Por isso, olhar para a própria ferida exige coragem. Não é fácil reconhecer que algo ainda dói. Não é simples admitir que uma situação do passado ainda influencia nossas escolhas. Mas existe uma diferença enorme entre viver preso à dor e olhar para ela com o desejo de ser curado. Quando reconhecemos a existência da ferida, damos um passo importante. Podemos dizer: “Sim, isso aconteceu. Sim, isso me machucou. Sim, ainda existem marcas em mim.” E, ao mesmo tempo, podemos acrescentar: “Mas eu não quero continuar vivendo dessa maneira. Eu quero cuidar dessa parte da minha história.”

3 – A decisão de começar a cura

A cura começa quando paramos de fugir de nós mesmos. Enquanto continuamos correndo das nossas dores, dificilmente conseguimos entender o que realmente acontece dentro de nós. Muitas vezes, tentamos preencher o vazio com trabalho, distrações, relacionamentos, consumo ou qualquer outra coisa que nos impeça de ficar em silêncio e perceber aquilo que sentimos. Mas, em algum momento, precisamos parar. Precisamos nos ouvir. Precisamos olhar com sinceridade para dentro e perguntar: o que ainda está doendo em mim?

Esse processo exige paciência. Nem toda ferida é curada de um dia para o outro. Algumas precisam de tempo, reflexão, diálogo e, em determinados casos, da ajuda de outras pessoas e de profissionais preparados para acompanhar esse caminho. Buscar ajuda não é sinal de fraqueza. Pelo contrário, muitas vezes é uma demonstração de coragem. Reconhecer que não conseguimos resolver tudo sozinhos pode ser um dos passos mais importantes para recuperar a nossa força e construir uma nova maneira de viver.

Talvez o primeiro passo seja simplesmente tomar uma decisão interior. Uma decisão de não continuar alimentando aquilo que nos destrói. Podemos olhar para a nossa história e dizer: “Isso aconteceu comigo. Foi real. Doeu. Eu fui machucado.” Não precisamos negar nada. Mas também podemos dizer: “Hoje eu decido que isso não terá mais o mesmo poder sobre a minha vida.” Curar não significa esquecer completamente o que aconteceu. Significa chegar a um ponto em que a lembrança existe, mas já não controla nossas escolhas, nossos relacionamentos e a maneira como enxergamos a nós mesmos.

Conclusão

Todos nós temos feridas. Algumas conhecemos muito bem, outras ainda precisamos descobrir. Faz parte da vida passar por experiências que nos decepcionam, nos entristecem e nos machucam. Não temos controle sobre todas as situações e, muitas vezes, somos atingidos por acontecimentos que jamais escolheríamos viver. Mas, mesmo quando não podemos escolher o que aconteceu, ainda podemos escolher como vamos caminhar a partir disso.

Continuar preso ao passado é permitir que algo que já aconteceu continue acontecendo dentro de nós todos os dias. É como reviver constantemente uma situação que não pode mais ser mudada. Isso não significa que devemos simplesmente “superar” tudo sem sentir ou que devemos ignorar a gravidade das nossas experiências. Pelo contrário. A verdadeira transformação começa quando reconhecemos a dor, damos espaço para aquilo que sentimos e buscamos, com sinceridade, um caminho de cura.

Por isso, talvez hoje seja o momento de olhar para alguma ferida que você vem tentando esconder e dizer: “Eu sei que você existe. Eu sei que isso aconteceu. Eu sei que me machucou.” Mas não pare por aí. Continue: “Você fez parte da minha história, mas não vai mais definir quem eu sou. Eu não posso mudar o passado, mas posso mudar a maneira como escolho viver daqui para frente.” Talvez essa decisão não resolva tudo imediatamente, mas pode ser o primeiro passo para algo muito importante: deixar de ser refém daquilo que nos feriu e começar, finalmente, a construir uma vida que não seja guiada pela dor, mas pela coragem de continuar e pela possibilidade de ser curado.

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