Há uma criança dentro de você: quando o passado ainda vive no presente

Há uma criança dentro de você: quando o passado ainda vive no presente

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🗓 Publicado em 12/10/2026
✍️ Por Pe. José Vidalvino
📘 Psicoterapeuta E Criador Do Método Da Cura Da Criança Interior


Há uma criança dentro de você: quando o passado ainda vive no presente

Introdução

O dia 12 de outubro, no Brasil, reúne duas celebrações que podem nos levar a diferentes reflexões: o Dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, e o Dia das Crianças. Enquanto uma data nos convida à fé e à espiritualidade, a outra nos faz lembrar da infância, dos primeiros anos de vida, das brincadeiras, dos sonhos e de tudo aquilo que fez parte da nossa formação. Mas essa lembrança pode ir muito além de olhar fotografias antigas ou recordar momentos felizes. Recordar a criança que fomos também pode ser uma oportunidade de olhar para a nossa própria história e perceber quanto daquilo que vivemos continua presente dentro de nós.

Quando somos crianças, ainda estamos descobrindo o mundo e construindo a nossa percepção sobre nós mesmos e sobre as pessoas ao nosso redor. As experiências que vivenciamos nessa fase podem contribuir para formar crenças, sentimentos, comportamentos e maneiras de interpretar aquilo que acontece conosco. Algumas experiências são positivas e deixam lembranças de amor, segurança, acolhimento e pertencimento. Outras podem deixar marcas de medo, rejeição, abandono, insegurança, culpa ou inadequação. Muitas dessas experiências são esquecidas conscientemente com o passar dos anos, mas isso não significa necessariamente que deixaram de influenciar a nossa maneira de viver.

Existe, portanto, uma criança dentro de cada adulto. Não estamos falando de uma criança física que permanece presa no passado, mas de uma dimensão da nossa história que continua fazendo parte de quem somos. Algumas reações que temos hoje podem estar relacionadas a experiências que aconteceram muitos anos atrás. Às vezes, uma situação aparentemente simples desperta uma emoção muito maior do que seria esperado porque toca em algo que já estava guardado dentro de nós. Olhar para essa criança é, antes de tudo, tomar consciência da nossa história e reconhecer que o passado pode continuar dialogando com o presente.

1. O que vivemos na infância não desaparece simplesmente

A infância é um período fundamental para o desenvolvimento humano. É nela que começamos a formar referências sobre amor, segurança, confiança, relacionamento, pertencimento e valor pessoal. Uma criança observa, sente, interpreta e aprende com aquilo que acontece ao seu redor. Ela não possui a maturidade emocional de um adulto para compreender determinadas situações e, muitas vezes, interpreta acontecimentos a partir de suas próprias referências. Uma palavra dita por um adulto, uma rejeição, uma comparação, uma ausência ou uma experiência de abandono podem adquirir um significado muito maior para uma criança do que aquele que o adulto imaginava estar transmitindo. Por isso, algumas experiências podem deixar marcas profundas na maneira como essa pessoa passa a enxergar a si mesma e o mundo.

Isso não significa que todas as dificuldades vividas na infância determinarão o futuro de uma pessoa. Nossa história influencia quem somos, mas não precisa definir quem seremos. Entretanto, ignorar aquilo que vivemos também não faz com que essas experiências desapareçam. Muitas vezes, aquilo que não foi compreendido permanece influenciando nossas reações de maneira silenciosa. Podemos crescer, estudar, trabalhar, construir uma família e desenvolver diversas áreas da nossa vida, mas ainda carregar dentro de nós sentimentos que surgiram muito cedo. O adulto cresce por fora, mas determinadas emoções, medos e necessidades podem permanecer associadas a experiências antigas que nunca foram verdadeiramente elaboradas.

É por isso que tomar consciência da própria história é tão importante. Não significa ficar preso ao passado, reviver constantemente aquilo que aconteceu ou procurar culpados para tudo o que enfrentamos. Significa compreender que somos resultado de uma história e que essa história merece ser conhecida. Existem memórias que nos fazem sorrir, outras que despertam saudade e algumas que ainda provocam dor. Todas fazem parte da nossa trajetória. Quando conseguimos olhar para elas com mais consciência, começamos a perceber que determinadas reações atuais talvez tenham raízes mais antigas. E essa percepção pode abrir espaço para escolhas diferentes no presente.

2. Quando a criança continua reagindo dentro do adulto

Existem momentos em que reagimos a determinadas situações de uma maneira que parece desproporcional ao que está acontecendo. Uma crítica simples pode provocar uma necessidade intensa de se defender. Uma rejeição pode despertar um sentimento profundo de não ser bom o suficiente. Uma pessoa que demora a responder pode gerar ansiedade e insegurança. Uma mudança pode provocar medo excessivo. Uma discussão pode despertar uma sensação de abandono. Naturalmente, cada situação possui suas particularidades e não devemos atribuir toda reação emocional à infância. Porém, em alguns casos, perceber a intensidade da reação pode ser um convite para olhar mais profundamente e perguntar: “O que essa situação está despertando em mim?”

Às vezes, a situação atual apenas toca em uma ferida antiga. O adulto que somos está diante de um acontecimento presente, mas alguma parte da nossa experiência emocional pode reconhecer naquela situação algo que já viveu. É como se uma memória emocional fosse acionada. A pessoa pode saber racionalmente que não está mais naquela época, mas ainda assim sentir medo, tristeza, rejeição ou insegurança. Isso ajuda a compreender por que algumas reações parecem automáticas. Não necessariamente escolhemos conscientemente sentir determinada coisa; muitas vezes, simplesmente reagimos a partir de padrões que foram construídos ao longo da nossa história.

Reconhecer esse mecanismo não significa justificar todos os nossos comportamentos pelo passado. Pelo contrário. A consciência aumenta a nossa responsabilidade sobre aquilo que fazemos com o que sentimos. Talvez não tenhamos escolhido algumas experiências que vivemos, mas podemos escolher o que faremos com elas hoje. Podemos aprender a perceber nossos gatilhos emocionais, observar nossas reações e buscar formas mais saudáveis de responder. O passado pode explicar algumas de nossas dificuldades, mas não precisa receber o poder de determinar todas as nossas escolhas. Quando reconhecemos a criança que ainda carrega determinadas dores, começamos também a oferecer ao adulto que somos a possibilidade de agir de uma maneira diferente.

3. Acolher a criança que existe dentro de você

Olhar para a criança que fomos exige coragem. Nem sempre queremos revisitar determinadas lembranças porque algumas delas podem trazer desconforto. Durante muito tempo, podemos ter aprendido a esconder aquilo que sentimos, dizer que já passou ou simplesmente seguir em frente sem olhar para trás. Continuar a vida é importante, mas seguir em frente não precisa significar ignorar aquilo que ainda dói. Às vezes, precisamos parar por um momento e reconhecer: “Isso aconteceu comigo. Isso me afetou. Eu senti isso”. Dar nome às experiências pode ser um primeiro passo para compreendê-las de uma maneira diferente.

Acolher a criança interior significa desenvolver uma relação mais compassiva com a própria história. É olhar para aquela criança sem julgá-la pelas ferramentas que ela ainda não possuía. Uma criança não tinha a maturidade, o conhecimento e a capacidade emocional que temos hoje. Ela fez o que conseguiu com os recursos que tinha naquele momento. Talvez tenha buscado amor de maneiras que hoje parecem inadequadas. Talvez tenha aprendido a esconder sentimentos para se proteger. Talvez tenha desenvolvido medo de errar, necessidade de agradar ou dificuldade de confiar. Ao olhar para essa criança com compreensão, podemos começar a substituir a cobrança pela consciência e o julgamento pelo acolhimento.

Esse processo não significa romantizar o passado nem transformar toda experiência difícil em uma explicação para a vida atual. Significa reconhecer a nossa humanidade. Em alguns casos, esse olhar pode ser feito por meio da reflexão, da escrita, da oração, da conversa com pessoas de confiança ou do acompanhamento de um profissional qualificado. Não precisamos enfrentar sozinhos aquilo que ainda nos causa sofrimento. Cuidar da nossa história também é uma forma de cuidar de quem somos hoje. A criança que fomos não precisa continuar carregando sozinha aquilo que o adulto que nos tornamos já possui condições de compreender, elaborar e ressignificar.

Conclusão

Talvez, neste Dia das Crianças, a maior lembrança que possamos ter não seja apenas das crianças que estão ao nosso redor, mas também da criança que um dia fomos. Talvez seja o momento de olhar para uma fotografia antiga e perceber que aquele pequeno ser continua fazendo parte da nossa história. Ele carregava sonhos, medos, necessidades, curiosidades e uma enorme capacidade de sentir. Algumas experiências podem ter fortalecido sua confiança; outras podem ter deixado marcas que ainda aparecem de tempos em tempos. Independentemente do que aconteceu, aquela criança merece ser reconhecida como parte da nossa trajetória. Não precisamos apagar o passado para seguir em frente. Precisamos aprender a olhar para ele com consciência.

Há uma criança dentro de você que talvez ainda esteja esperando ser ouvida. Talvez ela apareça quando você sente medo de ser rejeitado, quando acredita que precisa provar seu valor, quando tem dificuldade de receber amor ou quando se cobra excessivamente por cometer erros. Talvez ela apareça em momentos de insegurança ou diante de situações que despertam sentimentos antigos. Perceber essas manifestações não significa que exista algo errado com você. Significa que existem partes da sua história que podem estar pedindo atenção. E aquilo que recebe consciência pode começar a ser cuidado. Aquilo que é acolhido pode deixar de precisar se manifestar da mesma maneira.

Você não pode voltar no tempo para mudar tudo o que aconteceu, mas pode mudar a maneira como se relaciona com a sua história. Pode olhar para aquela criança com mais carinho, compreensão e respeito. Pode reconhecer que ela fez o melhor que conseguiu com os recursos que possuía. E pode dizer a ela, ainda que em silêncio: “Agora eu estou aqui. Você não precisa mais enfrentar tudo sozinho.” Talvez essa seja uma das formas mais profundas de crescer: não abandonar a criança que fomos, mas integrá-la à pessoa que nos tornamos. Há uma criança dentro de você. Escute-a, acolha-a e permita que ela descubra que o adulto que você se tornou pode oferecer hoje aquilo que, em algum momento, ela tanto precisou.

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