Negar a Dor Não Faz com que Ela Desapareça

Negar a Dor Não Faz com que Ela Desapareça

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🗓 Publicado em 26/08/2026
✍️ Por Pe. José Vidalvino
📘 Psicoterapeuta E Criador Do Método Da Cura Da Criança Interior


Negar a Dor Não Faz com que Ela Desapareça

Introdução

Existe uma coisa que quase todos nós fazemos, em algum momento da vida: fingimos que não estamos sentindo. Sorrimos quando queremos chorar, dizemos “está tudo bem” quando, por dentro, estamos completamente quebrados. Seguimos trabalhando, cuidando dos outros, cumprindo compromissos e tentando manter a aparência de que a vida continua normalmente. O problema é que o coração não entende de aparência. Aquilo que você tenta esconder continua existindo dentro de você. Negar a dor não faz com que ela desapareça. Apenas faz com que ela fique escondida em algum lugar da nossa história, esperando uma oportunidade para voltar a aparecer.

Talvez você tenha aprendido, desde muito cedo, que demonstrar sofrimento era sinal de fraqueza. Talvez tenha ouvido que precisava ser forte, que deveria esquecer o passado, que aquilo já aconteceu e que era melhor seguir em frente. E você seguiu. Só que seguir em frente não significa necessariamente estar curado. Muitas vezes, significa apenas aprender a conviver com aquilo que ainda dói. Você pode mudar de cidade, terminar um relacionamento, conseguir um emprego melhor, construir uma família e até alcançar objetivos importantes, mas, se não olhar para determinadas feridas, elas podem continuar influenciando silenciosamente a maneira como você vive.

Pense em uma ferida física. Você machuca a mão e percebe que existe um corte. Se colocar uma luva por cima, a ferida deixa de existir? Claro que não. Você apenas deixou de enxergá-la. E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo com algumas áreas da sua vida. Você colocou uma “luva” sobre a dor e passou a acreditar que, porque ninguém consegue vê-la, ela deixou de existir. Mas basta alguém tocar naquele ponto sensível para você reagir de maneira desproporcional, sentir uma raiva que não entende, ficar triste sem saber por quê ou perceber que aquela velha dor ainda está ali. Esconder não é curar.

1 — O problema de fingir que está tudo bem

Fingir que está tudo bem pode até funcionar durante algum tempo. Você consegue cumprir suas obrigações, conversar com as pessoas, trabalhar, estudar, cuidar da casa e continuar a rotina. Por fora, ninguém percebe nada. Só que existe uma diferença enorme entre estar bem e conseguir funcionar apesar de não estar bem. Muitas pessoas confundem essas duas coisas. Aprendem a sobreviver tão bem que passam a acreditar que estão vivendo. Tornam-se especialistas em esconder sentimentos, engolir palavras, controlar lágrimas e guardar acontecimentos que nunca foram realmente elaborados.

O problema é que aquilo que não é elaborado não simplesmente desaparece. A dor pode mudar de lugar, mudar de forma e encontrar outras maneiras de se manifestar. Às vezes aparece como irritação constante. Outras vezes, como medo de abandono, necessidade excessiva de aprovação, dificuldade de confiar, ciúme, isolamento ou incapacidade de estabelecer limites. Pode aparecer também naquele sentimento de vazio que você não consegue explicar. Você olha para a própria vida e pensa: “Eu tenho tudo para estar bem, então por que ainda me sinto assim?”. Talvez porque ter coisas não significa necessariamente ter resolvido aquilo que existe dentro de você.

E aqui está uma verdade que pode incomodar: enquanto você continuar fingindo que não existe uma ferida, continuará permitindo que ela influencie suas escolhas. Você pode até colocar uma roupa bonita sobre um machucado, mas isso não muda o que está acontecendo por baixo dela. Da mesma maneira, frases positivas, distrações, excesso de trabalho, relacionamentos, dinheiro ou qualquer outra forma de fuga podem aliviar momentaneamente o desconforto, mas não substituem o enfrentamento daquilo que precisa ser cuidado. Não se trata de viver preso ao passado. Trata-se de parar de permitir que o passado continue dirigindo o seu presente sem que você perceba.

2 — A dor escondida continua influenciando sua vida

Talvez você esteja se perguntando: “Mas como uma dor antiga pode continuar influenciando a minha vida depois de tantos anos?”. A resposta está nas marcas que determinadas experiências deixam em nossa maneira de interpretar o mundo. Quando alguém sofre rejeição, abandono, humilhação, violência emocional, perdas ou experiências profundas de desamparo, pode começar a construir determinadas crenças sobre si mesmo e sobre os outros. “Eu não sou importante.” “Ninguém fica.” “Não posso confiar.” “Preciso agradar para ser amado.” “Se eu demonstrar fraqueza, serei ferido novamente.” Essas conclusões podem parecer verdadeiras porque nasceram de experiências reais, mas uma experiência dolorosa não precisa determinar toda a sua história.

O mais perigoso é que muitas dessas crenças passam a funcionar no piloto automático. Você reage antes de pensar. Alguém demora para responder uma mensagem e você imagina que está sendo rejeitado. Alguém faz uma crítica e você sente que está sendo atacado. Uma pessoa se aproxima e você começa a desconfiar. Alguém demonstra carinho e você se afasta porque tem medo de se machucar. Pequenas situações do presente acabam despertando emoções que pertencem, em parte, a experiências anteriores. É como se alguém tocasse uma ferida que você jurava ter esquecido. A reação parece exagerada para quem está de fora, mas, dentro de você, existe uma história que explica por que aquele toque doeu tanto.

Por isso, não basta perguntar apenas “por que estou reagindo assim?”. Às vezes é necessário perguntar: “O que essa situação está despertando em mim?”. Essa pergunta muda tudo. Ela tira você do lugar de vítima das próprias emoções e coloca você diante da possibilidade de compreender a própria história. Isso não significa justificar comportamentos prejudiciais ou culpar eternamente quem lhe causou sofrimento. Significa assumir responsabilidade pelo que você fará daqui para frente com aquilo que aconteceu. Você não escolheu todas as feridas que recebeu, mas pode escolher se continuará alimentando-as, escondendo-as ou começará a cuidar delas.

3 — Encarar a ferida é o começo da mudança

Encarar a dor não significa ficar preso nela. Pelo contrário. Muitas vezes, o que nos mantém presos é justamente aquilo que nos recusamos a olhar. Quando você reconhece uma ferida, começa a compreender seus efeitos. Quando compreende seus efeitos, começa a perceber padrões. E quando percebe padrões, finalmente pode escolher fazer diferente. Esse processo exige coragem porque olhar para dentro nem sempre é confortável. Existem lembranças que incomodam, sentimentos que foram reprimidos durante anos e verdades que preferimos não admitir. Mas existe um preço alto demais em continuar fugindo de nós mesmos.

Talvez você precise reconhecer que algumas coisas realmente doeram. Talvez precise admitir que determinada pessoa o machucou, que determinada experiência deixou marcas ou que você passou anos tentando provar que não se importava com aquilo. Talvez precise parar de dizer “já superei” quando, na verdade, ainda existe ressentimento, medo ou tristeza. Reconhecer não significa permanecer no sofrimento. Significa parar de gastar energia tentando convencer a si mesmo de que ele não existe. A cura começa quando deixamos de lutar contra a existência da ferida e começamos a cuidar dela com honestidade, consciência e responsabilidade.

E talvez essa seja uma das maiores provocações que você possa fazer a si mesmo: “Até quando vou continuar fingindo que estou bem?”. Até quando você vai colocar uma luva sobre uma ferida e acreditar que ninguém perceberá? Até quando vai culpar as pessoas, as circunstâncias ou o passado sem olhar para a parte que hoje está sob sua responsabilidade? Você não pode mudar o que aconteceu, mas pode mudar a relação que mantém com aquilo que aconteceu. Pode transformar dor em consciência, queda em aprendizado e sofrimento em uma oportunidade de reconstrução. Não é apagar a história. É impedir que ela continue escrevendo o seu futuro.

Conclusão

Negar a dor é uma estratégia que pode funcionar por algum tempo, mas não para sempre. Você pode esconder uma ferida, cobri-la, ignorá-la e continuar caminhando, mas, enquanto ela não for cuidada, qualquer novo impacto poderá fazê-la doer novamente. Com as dores emocionais acontece algo parecido. O tempo, sozinho, nem sempre resolve aquilo que não foi compreendido. Às vezes, o tempo apenas nos ensina a esconder melhor. Por isso, não confunda silêncio com cura, distância com superação ou aparência de força com verdadeira transformação.

Olhar para a própria dor exige coragem. É muito mais fácil apontar para fora do que investigar aquilo que acontece dentro. É mais confortável culpar alguém do que perguntar por que aquela situação ainda tem tanto poder sobre você. É mais simples dizer “eu sou assim” do que reconhecer que determinados comportamentos podem ter sido construídos como formas de proteção. Mas aquilo que um dia foi necessário para sobreviver pode não ser mais necessário para viver. Você não precisa continuar usando as mesmas defesas contra perigos que talvez já não existam.

Então, talvez esteja na hora de tirar a luva. Não para ficar mexendo na ferida o tempo todo, mas para finalmente enxergá-la. Reconheça o que doeu. Dê nome ao que você sente. Compreenda sua história. Procure ajuda quando perceber que não consegue fazer isso sozinho. E, principalmente, pare de acreditar que esconder é o mesmo que superar. A dor que você enfrenta pode se transformar em consciência. A ferida que você cuida pode deixar de comandar suas escolhas. E aquilo que um dia quase destruiu você pode, com o tempo, tornar-se parte da história de alguém que decidiu não fugir mais de si mesmo.

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