🗓 Publicado em 02/09/2026
✍️ Por Pe. José Vidalvino
📘 Psicoterapeuta E Criador Do Método Da Cura Da Criança Interior

Introdução
Todos nós passamos por situações que deixam marcas. Algumas pessoas carregam lembranças de rejeições, outras trazem consigo a dor do abandono, da perda, da traição ou de palavras que ouviram e nunca conseguiram esquecer. Existem acontecimentos que terminam, mas, mesmo depois de muito tempo, continuam acontecendo dentro de nós. O problema não está apenas naquilo que vivemos, mas também na maneira como passamos a interpretar essas experiências. Muitas vezes, algo que aconteceu em determinado momento da nossa vida começa, aos poucos, a definir a forma como enxergamos a nós mesmos, os outros e o nosso futuro.
É nesse ponto que podemos cometer uma grande confusão: acreditar que somos aquilo que nos aconteceu. Uma pessoa que foi abandonada pode começar a acreditar que não merece ser amada. Quem sofreu rejeição pode passar a pensar que ninguém gosta dela. Quem ouviu durante toda a vida que era incapaz talvez cresça acreditando que realmente não consegue fazer nada direito. Aos poucos, deixamos de olhar para essas situações como experiências dolorosas que vivemos e começamos a transformá-las em uma definição de quem somos.
Mas existe uma verdade que precisamos lembrar: você não é a sua dor. Você pode ter passado por momentos difíceis, pode ter sido machucado, rejeitado ou decepcionado, mas isso não resume a sua existência. A dor faz parte da sua história, mas não precisa ser a sua identidade. Existe uma grande diferença entre dizer “eu estou sofrendo” e acreditar “eu sou o meu sofrimento”. Quando conseguimos perceber essa diferença, começamos a abrir espaço para uma nova forma de olhar para nós mesmos e para a nossa própria vida.
1 – Quando a dor começa a se transformar em identidade
A dor pode ser tão intensa que, muitas vezes, acabamos criando uma ligação profunda com ela. No início, existe um fato: algo aconteceu e nos machucou. Depois, existe a lembrança, o sentimento e as consequências daquela experiência. Com o passar do tempo, porém, podemos começar a repetir determinadas histórias tantas vezes dentro da nossa mente que elas deixam de ser apenas uma parte da nossa trajetória e passam a ser a explicação para tudo o que somos. É como se a ferida começasse a falar por nós e nós, sem perceber, começássemos a acreditar em tudo o que ela diz.
É assim que surgem pensamentos como: “Eu sou fraco”, “ninguém me ama”, “sempre vão me abandonar”, “não consigo confiar em ninguém” ou “a minha vida nunca vai mudar”. Perceba que existe uma diferença enorme entre reconhecer uma experiência e transformar essa experiência em identidade. Uma coisa é dizer: “Eu fui abandonado”. Outra completamente diferente é afirmar: “Eu sou alguém que não merece ser amado”. O fato aconteceu, mas a conclusão que tiramos dele pode não representar a verdade sobre quem somos.
Quando construímos nossa identidade a partir da dor, começamos a enxergar tudo através dela. Uma simples situação pode parecer uma nova confirmação daquilo que já acreditamos. Se alguém demora para responder uma mensagem, a pessoa que carrega uma ferida de abandono pode pensar imediatamente que está sendo deixada de lado. Se recebe uma crítica, quem possui uma ferida ligada à incapacidade pode acreditar que aquilo prova que não é bom o suficiente. A dor cria filtros, e, quando não percebemos isso, passamos a interpretar o presente usando apenas as experiências negativas do passado.
2 – Você passou pela dor, mas não precisa morar nela
Uma das coisas mais importantes que podemos aprender é que passar por uma experiência não significa que precisamos permanecer presos a ela. O passado aconteceu e não podemos mudá-lo. Não temos como voltar no tempo e impedir determinadas palavras, atitudes ou acontecimentos. Também não precisamos fingir que aquilo não nos machucou. Existem dores reais e profundas, e tentar ignorá-las não é o mesmo que curá-las. A cura não começa quando fingimos que nada aconteceu. Ela começa quando conseguimos olhar para a nossa história com sinceridade.
Talvez seja necessário dizer: “Sim, isso aconteceu comigo. Sim, aquilo me machucou. Sim, eu sofri e algumas marcas ainda existem”. Reconhecer isso não é sinal de fraqueza. Pelo contrário, exige muita coragem. Às vezes, passamos anos tentando esconder aquilo que sentimos porque acreditamos que demonstrar dor significa ser fraco. Criamos uma imagem de que está tudo bem, sorrimos para as pessoas e continuamos a nossa rotina, enquanto existe uma parte de nós pedindo para ser vista, compreendida e cuidada.
Mas reconhecer a dor não significa entregar a vida a ela. Você pode aceitar que foi machucado sem aceitar continuar sendo definido por aquilo. Pode reconhecer uma ferida sem transformar essa ferida em sua casa. Existe uma grande diferença entre visitar uma dor para compreendê-la e decidir morar nela para sempre. Talvez você precise olhar para o passado, entender algumas coisas, chorar o que não conseguiu chorar e reconhecer aquilo que tentou esconder. Mas o objetivo não é permanecer preso naquele lugar. O objetivo é compreender o que aconteceu para poder seguir em frente de uma maneira mais consciente.
3 – Reconstruindo a verdadeira identidade
Depois de reconhecer que não somos a nossa dor, surge uma pergunta importante: então, quem somos? Essa talvez seja uma das partes mais bonitas e, ao mesmo tempo, mais desafiadoras do processo. Durante muito tempo, podemos ter vivido acreditando em definições criadas pelas nossas experiências negativas. Talvez alguém tenha dito que você não era capaz e você acreditou. Talvez tenha sido rejeitado e passou a pensar que não era digno de amor. Talvez tenha falhado algumas vezes e decidiu que era um fracasso. Mas nenhuma dessas experiências, por mais dolorosas que tenham sido, possui o direito de determinar toda a sua identidade.
Reconstruir a própria identidade exige começar a questionar algumas histórias que repetimos para nós mesmos. Nem tudo o que pensamos sobre quem somos corresponde à realidade. Algumas dessas ideias nasceram em momentos de dor e foram reforçadas durante anos. Por isso, é importante perguntar: “Isso é realmente verdade ou é apenas uma conclusão que tirei por causa de algo que aconteceu comigo?” Talvez você não seja fraco; talvez apenas tenha passado por situações que exigiram muito de você. Talvez você não seja incapaz; talvez tenha aprendido a duvidar de si mesmo. Talvez você não seja alguém impossível de amar; talvez tenha convivido com pessoas que não souberam amar você da maneira que precisava.
Reconstruir a identidade também significa permitir-se descobrir novas possibilidades. Você não precisa continuar sendo a mesma pessoa que aprendeu a sobreviver em meio à dor. Aquilo que foi necessário para você sobreviver em determinado momento talvez não seja mais necessário agora. Os muros que você construiu para se proteger podem ter impedido novas aproximações. O medo de sofrer novamente pode estar impedindo você de viver novas experiências. A cura acontece, muitas vezes, quando começamos a perceber que o passado nos ensinou algumas coisas, mas não precisa continuar decidindo tudo o que faremos daqui para frente.
Conclusão
Você não escolheu todas as situações que viveu. Talvez tenha passado por experiências que jamais gostaria de ter enfrentado. Algumas pessoas podem ter deixado marcas profundas em você, e determinadas lembranças talvez ainda tragam sentimentos difíceis. Não é preciso diminuir a sua dor para seguir em frente. O que aconteceu merece ser reconhecido. Aquilo que você sentiu foi real. As marcas existem. Mas existe uma diferença entre reconhecer a importância de uma experiência e permitir que ela se torne a única verdade sobre a sua vida.
A sua história é muito maior do que os capítulos mais dolorosos dela. Você é mais do que as vezes em que foi rejeitado, mais do que os momentos em que se sentiu abandonado e muito mais do que os erros que cometeu. Você pode ter caído, chorado, perdido pessoas e enfrentado situações que pareciam impossíveis de superar. Mas nada disso, sozinho, consegue definir completamente quem você é. A dor pode explicar algumas partes da sua caminhada, mas não precisa determinar o seu destino.
Talvez hoje seja o momento de olhar para si mesmo e dizer: “Eu reconheço tudo o que vivi. Reconheço que algumas coisas me machucaram e deixaram marcas. Mas eu não vou mais confundir aquilo que aconteceu comigo com quem eu realmente sou.” Você não precisa apagar a sua história para começar de novo. Precisa apenas parar de entregar à dor o poder de escrever os próximos capítulos. Cuide das suas feridas, procure ajuda quando necessário, permita-se sentir e se reconstruir. E, acima de tudo, lembre-se todos os dias: você passou pela dor, mas você não é a sua dor.
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